História

“A cidade reflete passado e presente. Seus lugares, seu cenário possui a sua história. História que lembra o quanto não seria possível viver o momento atual, da forma como se vive, se não tivesse sido possível existir o ontem. O hoje é, sem dúvida, uma invenção do ontem.

Até certo tempo era difundida pelo senso comum local, uma lenda que tentava justificar o surgimento da Vila São João (atual cidade de Itapororoca), mas como todo mito, esse não correspondia fielmente a realidade concreta. As contradições entre continuidades e descontinuidades denunciavam esse entrave. Por esse motivo, é que brotou a ideia de (re)escrever e (re)significar a escrita da História de nosso município. Escrita esta movida pelo diálogo com diversas fontes, e que carregam contributos de outras formações e pensamentos.

Não existem dados concretos sobre os primeiros momentos da povoaçãodo que mais tarde viria a ser o município de Itapororoca, assim, a história da cidade de Itapororoca que conhecemos hoje foi em larga medida, desenhada e até mesmo descoberta, durante o século XIX, quando tropeiros (conjunto de homens que transportavam gado e mercadorias no Brasil) fizeram integrar o litoral às regiões mais longínquas da Paraíba, abrindo e descobrindo novos caminhos.

Nas rotas tropeiras foram estabelecidos pousos para descanso e troca de montarias, além de pernoite para os viajantes, que, com o tempo, se transformaram em núcleos de várias cidades, a exemplo do nosso atual município, que com o surgimento de um pequeno povoado local, surgiu a Vila São João, distrito anexado ao município de Mamanguape, datado de 1908.

Os tropeiros que faziam pouso na então Vila São João, costumavam caminhar várias horas por dia, percorrendo léguas de distância das cidades em direção aos lugares mais distantes do nosso Estado. O transporte de mercadorias, visto como algo marginal, ficava a cargo de homens livres, pobres, que o desempenharam por ser uma forma de garantir sua subsistência.

As dificuldades apresentadas durante os trajetos, somando-se à necessidade de paradas para descanso dos animais e dos próprios condutores, obrigaram que se estabelecessem ranchos para abrigo da tropa ao final de cada dia de jornada, cuja distância percorrida variava entre 18 e 25 quilômetros. Esses ranchos, em muitos casos, eram construídos pelos fazendeiros para que os tropeiros que transportavam seus produtos pudessem descansar e seguir viagem na madrugada seguinte.

Depois de estabelecidos os ranchos, os fazendeiros não tardavam em erguer uma capela, símbolo de sua devoção, em seguida instalava-se uma pequena venda para suprir as necessidades básicas dos tropeiros e viajantes em geral que por ali trafegassem. Depois, algumas famílias fixavam moradia no entorno e estava dado o ponto de partida para o estabelecimento de mais uma vila no interior do país² (ALMEIDA, 1981). E pelo que consta, foi assim que a Vila que deu origem ao município de Itapororoca começou.

Em torno do rancho de tropas, situado na atual cidade Itapororoca, foi erguida uma capela em louvor a São João Batista, onde o Padre celebrava as missas e outras cerimônias religiosas.E em torno dela, deu-se início o povoado.

Além disso, os tropeiros serviram de elemento integrador. Por onde passavam, eram os festeiros, tocadores de viola e sanfona, emissários oficiais, transmissores de notícias, recados e receitas. No Vale do Mamanguape foram fundamentais no momento de intensificação da cultura e desenvolveram uma cultura própria que chega até os nossos dias por meio da literatura oral, da culinária, da música, da religiosidade e no estilo de vida.

Segundo depoimentos de antigos moradores do nosso município, atualmente ainda existem, remanescentes da secular atividade tropeira na região, principalmente nas áreas rurais, em pequenas localidades, sendo constatada a continuidade de atividades em pequenas tropas de cargueiros, hoje motorizados, levando até as casas dos populares inúmeras mercadorias, como cestas básicas, utensílios e objetos domésticos e tantos outros, no entanto, hoje com outros nomes, mais conhecidos pelos locais como prestacionistas.

Os lotes de terras que então seriam povoados eram vestígios das sesmarias advindas das capitanias hereditárias, na época pertencente aos fazendeiros locais. Com o povoamento da região do Vale do Mamanguape, algumas famílias começaram a se estabelecerem em propriedades localizadas onde hoje está situado o município de Itapororoca, e naquelas propriedades deu-se início a construção dos engenhos de açúcar, o qual abrangia a casa-grande, a capela e o próprio engenho, e no seu entorno, deu-se início a construção das primeiras casas residenciais na área rural, área que anos mais tarde viria a ser nosso município.

A história do nosso município está atrelada a cidade de Mamanguape, cidade esta que foi sede do distrito de Itapororoca durante várias décadas, vindo este a desmembra-se apenas em 1961 com sua emancipação política.

A Vila São João de Mamanguape começa a surgir e desenvolver-se devido a rota de comércio e pouso dos tropeiros e outros viajantes que se deslocavam da Capital para o interior. O distrito de São João (atual Itapororoca), juntamente com outros distritos foram criados pela municipal nº 11, de 21 de dezembro de 1908, e anexados ao município de Mamanguape.

Anos mais tarde, por meio do decreto-lei estadual nº 520, de 31 de dezembro de1943, foi criado o distrito de Itapororoca (antiga Vila São João), criado com terras do distrito sede do município de Mamanguape.

Os primeiros grupos de povoamento a chegarem ao território onde hoje está situada a cidade de Itapororoca encontraram naquela época, apenas um acampamento de tropeiros que demandavam à Capital e ao interior, protegido pelas árvores frondosas que ali encontravam e pelo rio que cortava grande parte do município, que nasce no atual parque da nascença.

A designação do lugar, ITAPOROROCA vem do tupi-guarani e sua tradução corresponde a (Ita= pedra e Pororoca= encontro das águas).

Com o desenvolvimento da cultura canavieira local é que a Vila desenvolveu-se, graças à figura dos donos de engenhos – um dos tipos humanos daquele tempo que mais teve chance de ascender, em função de exercer uma atividade considerada de grande relevância econômica e de vital importância para a manutenção do sistema econômico vigente.

Com a criação do povoado, teve início à feira-livre que hoje é uma das maiores da região, local esse que os moradores da localidade vinham fazer suas compras, pois o comércio organizado mais próximo, ficava nas cidades vizinhas de Mamanguape, Sapé e Guarabira, às quais tinhas suas estradas de difícil acesso, e poucos moradores possuíam meios de se deslocarem até as mesmas, devido a falta de transporte.

À época era muito difícil o deslocamento da população local, a qual residia em sua grande maioria em áreas rurais, para cidades próximas, devido a dificuldade de condução, pois o transporte era feito em mulas, a pé, em carroças e raramente em automóveis, daí o papel relevante dos mercadores ambulantes. As tropas que levavam os produtos rurais para serem vendidos, também eram responsáveis por trazer ao interior os bens de consumo que vinham da capital, já caídos no gosto popular, como tecidos, ferramentas, entre outros.

No início, a então, Vila de São João de Mamanguape não possuía mais que umas poucas casas que faziam a ligação entre os edifícios públicos considerados importantes à administração local: capela, posto de saúde e algumas residências.

No início, a então, Vila de São João de Mamanguape não possuía mais que umas poucas casas que faziam a ligação entre os edifícios públicos considerados importantes à administração local: capela, posto de saúde e algumas residências.

Em divisão territorial datada de 08 de janeiro de 1949, o município aparecia com a denominação de Vila de Itapororoca e permaneceu como distrito do município de Mamanguape até 1961.

Moradores relatam que Rúbio Maia Coutinho (PSD), então vereador de Mamanguape e representante do distrito de Itapororoca, apresentou propositura requerendo a criação do município, o qual foi aprovado por lei estadual de nº 2.701, de 28 de dezembro de 1961, criando o município de Itapororoca, a qual foi sancionada pelo então governador da Paraíba Pedro Moreno Gondim e publicada no Diário Oficial do Estado no dia 29 de dezembro do mesmo ano. Data em que é comemorada a emancipação política do município.

No ano de 1962ocorreu a primeira eleição municipal no município recém-criado, tendo concorrido para aquela eleição, os candidatos Rúbio Maia Coutinho (PSB) e José Marinho de Souza (PSD), tendo sido eleito o primeiro, com 772 votos, num total de  66,67% do votos computados. Sendo assim, Rúbio Maia, o primeiro prefeito da cidade.

No entanto, isso não fez com que o município recém-criado sofresse alterações na divisão do espaço e das funções urbanas.

Do ponto de vista urbanístico, se comparada a outras cidades da Paraíba, a cidade de Itapororoca teve um crescimento lento. Quando de sua emancipação em 1961, a população adulta, inscrita no Tribunal Regional Eleitoral apta a votar na eleição de 1962 era pouco mais que 1.378 eleitores. Já no ano de 1970, segundo dados do IBGE, a população urbana era de 2.193 habitantes e a população rural era de 9.585 habitantes.

Após sua emancipação, o cenário que a Vila possuía manteve o mesmo perfil. Nos dias atuais, ao se percorrer o centro da cidade, consegue-se reportar àquela época. É possível sentir que seu passado ainda permanece em algumas edificações, a exemplo do posto médico, do mercado público, das poucas casas antigas ainda existentes, denunciando que estas paredes fazem parte daquele panorama há algum tempo. Prédios antigos se misturam a novas construções, a novas tintas, a remodelações ou ao esquecimento.

Quando a Vila foi transformada em cidade, a capela e outras construções foram removidas pelo poder público municipal, para permitir o crescimento e desenvolvimento da nossa urbe.A igreja seria reconstruída noutro local, e anos mais tarde passaria por diversas remodelações até se transformar na igreja matriz de São João Batista.

No final do século XX, os anos avançavam, mas o ritmo do desenvolvimento urbano de Itapororoca continuava lento. A expansão da atividade açucareira muito contribuiu para o ritmo com que a cidade caminhava, uma vez que, sendo os engenhos unidades produtivas autônomas, a produção da cachaça, do melaço, da rapadura, da agricultura de subsistência proporcionava uma ocupação espacial geralmente em torno dos próprios engenhos. Assim restando à cidade poucas funções além da comercial.

A cidade nos seus primeiros anos tinha seus movimentos limitados durante a noite. A discreta iluminação posta à disposição da população, colocava sob estreitos limites os deslocamentos das pessoas. Logo depois do pôr do sol, a cidade mergulhava na escuridão, poucas pessoas arriscavam-se a sair de casa, e na monotonia, a cidade dormia meio em silêncio. A espera e a busca da modernização através da luz elétrica duraram até finais dos anos 60. As lâmpadas anunciavam o fim de uma iluminação pública à base de uma usina elétrica movida a óleo diesel, que funcionava pouco mais que até às vinte e uma horas da noite, como também o início da construção de um novo cenário da cidade.

A eletricidade trazia a mudança no panorama urbano e no cotidiano da população. Mas essa, ao chegar, não se tornou uma realidade na vida de toda a população. A área rural, por exemplo, permaneceu na escuridão durante muitos anos.

Com relação ao serviço de abastecimento de água, a situação não era diferente. Desde a ocupação do seu espaço, a água para consumo adivinha do rio das imediações da cidade, decacimbas e de uma lagoa em que as pessoas usavam para se banhar frequentemente. Havendo assim, ameaça a inúmeras doenças.

Ainda na década de 1940, foi criado no Brasil, o Serviço Nacional de Malária (SNM), com a finalidade de organizar em todo o país, o plano de combate à malária. Tratava-se de um dos instrumentos decisivos de intervenção federal no campo da saúde pública e base institucional para os novos experimentos de combate às endemias rurais.

Com a ampliação de seu raio de ação, o SNM chegou a Vila de Itapororoca e uma de suas ações concentrou-se no uso de medidas dirigidas contra as fases aquáticas dos transmissores da malária. Dentre essas medidas, destacaram-se as obras de engenharia sanitária realizada pelo serviço de profilaxia rural, drenagem, aterros e investigações epidemiológicas e entomológicas. Foi nesse contexto que a então lagoa foi aterrada, e então, realizado o primeiro serviço de abastecimento de água potável disponível para população urbana da localidade.

Assim, nasceu o abastecimento d’água potável de Itapororoca, advinda da então, nascente de São João Batista, situada no Distrito de Leite Mirim de Cima. Com isso, foram construídas duas fontes de abastecimento e uma caixa d’água, diminuindo dessa forma, a necessidade de transportar água em lombos de burros dos mananciais da região e a exposição aos riscos de doenças causadas pelo não tratamento da água para consumo.

Em 1968, foi lançada pelo prefeito da época, a abertura de créditos especiais para fins específicos destinados a construção de uma Caixa d’água na cidade, haja vista que a antiga caixa d’água construída pelo SNM, não atendia mais a população que aos poucos vinha crescendo.

Itapororoca, nos seus primeiros anos, pode ser descrita como sendo não possuidora de calçamento nas ruas; nelas acumulavam-se lixo e águas estagnadas, formando grandes lamaçais, que propiciavam o crescimento de ervas e capins. Em 1968, percebe-se uma nítida preocupação do gestor público com essa questão, pois naquele ano, lançou-se pelo poder executivo, a abertura de créditos especiais destinados ao prosseguimento dos serviços de pavimentação e meio-fio da cidade. No entanto, a situação da falta de pavimentação, ainda permanecia em alguns bairros do município.

Aos poucos nossa cidade teve seus espaços tradicionais de circulação, moradia, lazer e trabalho, redefinidos, remodelados. Nesse sentido, aos poucos as casas de taipa, o cemitério local, os becos e as ruas enlamaçadas foram sendo eliminadas do centro da cidade, alterando as construções e procurando ofertar uma nova fisionomia à cidade. Com a ocupação do centro da cidade, por pessoas mais afortunadas, novas ruas foram sendo abertas na periferia, onde passaram a residir os mais humildes, em pequenas casas de taipa e piso de barro.

Destacaram-se nessa busca de remodelação os governos de José Felix de Brito, Alceu Costa e Humberto Espínola Guedes. No período desses governos foram incentivadas e praticadas, dentre outras reformas, as seguintes: construção do Posto Médico (1970), da sede da Prefeitura e Junta do Serviço Militar (1969), da Praça Frei Damião (1975) e do parque da Piscina da Nascença – área de lazer (1977), abertura de ruas, remodelação, calçamento de ruas, construção e pintura de prédios públicos.

Com o passar do tempo foram incidindo transformações nos casebre de outrora em casas mais modernas. A nova feição das residências além de satisfazer às vaidades dos seus donos atendia às orientações dos novos tempos.

Com a cidade dotada de equipamentos e serviços urbanos, a compra de terrenos nas ruas beneficiadas se tornou comum, principalmente pelos que substituíram o campo pelos ares da cidade. Dessa forma, aos poucos foram sendo valorizados os terrenos na área urbanizada acelerando a ocupação do centro de Itapororoca e seus arredores.

No final da década de 1960 e 1970, a cidade de Itapororoca começava a incorporar, como uma rotina, a elaboração de leis, que traziam em seu bojo a nítida preocupação com o aspecto estético ou de embelezamento para a cidade. Nesse período, foram elaboradas posturas municipais que visavam, dentre outros aspectos, a melhoria da qualidade de vida de seus munícipes.

No tempo atual, um dos aspectos marcantes que podem ser observados em nossa cidade é a conquista lenta da cidadania, expressa pelas várias formas de organização da sociedade civil para a garantia de seus direitos fundamentais. Claro que ainda há um grande caminho a percorrer e é exatamente isso que se espera das novas gerações. Devemos procurar conhecer as lutas do povo, suas histórias para darmos sequências a elas, objetivando a construção de uma cidade melhor.

Gradativamente, a Vila de Itapororoca se tornava oficialmente cidade. Foram muitas as lutas e reivindicações para que este município se tornasse mais uma cidade do Estado da Paraíba. Terra de homens e mulheres de bem, cidadãos trabalhadores, honrados e compromissados com a terra que os acolheu com tanta afeição e apreço. Essa é Itapororoca, terra das águas cristalinas, do abacaxi, da cana-de-açúcar e das lendas religiosas e políticas.

Cidade que apesar de pequena tem em seu arcabouço um povo honesto e ordeiro, que luta incessantemente para que esta terra progrida e se desenvolva cada dia mais. ”   –  Everaldo da Silva Ribeiro¹

¹ O autor é mestrando em Direitos Humanos, políticas públicas e cidadania pela UFPB, graduado em História e Direito pela Universidade Estadual Paraíba. Especialista em Direitos Fundamentais e Democracia pela UEPB, e em Direito Administrativo e Gestão Pública pela UNPB/FPB. Foi bolsista pesquisador do PIBIC/CNPq/UEPB em 2010/2011. Possui vários artigos publicados na área de História e em Direito. Lecionou História na rede estadual de ensino e Língua Portuguesa no Colégio Colibri – da rede privada. Atua como Advogado e trabalha como supervisor educacional na rede municipal de Itapororoca.

² ALMEIDA, Aluisio de. Vida e morte do tropeiro. São Paulo: Martins; EDUSP, 1981.